31 10 / 2013

01 12 / 2012

Como “Avenida Brasil” passou de uma simples novela para uma ditadora de tendências, costumes e notícias

por Izadora Pimenta e Carolina Becker

*matéria feita para o Saiba+

Em um sábado à noite, um grupo de amigos havia levado bolos e adereços em um videokê no Jardim Chapadão, em Campinas (SP), para comemorar o aniversário do “Leleco”. Leleco, que na verdade se chama Décio, passou a ser chamado assim por conta do personagem de Marcos Caruso em Avenida Brasil, dono do apelido e de várias outras características intrínsecas ao aniversariante.

Cravando 51 pontos de audiência ao final, de acordo com dados do Ibope (cada ponto equivale a 60 mil domicílios na Grande São Paulo), Avenida Brasil, novela exibida pela Rede Globo no horário das nove no período de 26 de março a 19 de outubro, foi acompanhada pelo público com a assiduidade de um jogo de futebol - no qual dois times, as personagens principais Nina (Débora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves), possuíam suas torcidas fieis. Ao contrário de suas antecessoras, “Avenida Brasil” conquistou um público que não estava acostumado a parar em frente da TV para assistir novela e ainda se tornou um exemplo claro de como duas mídias podem conviver lado a lado: a Internet também foi pautada por ela.

Segundo Nilson Xavier, especialista em telenovelas, autor do Almanaque da Telenovela Brasileira e dono do site Teledramaturgia.com, o sucesso de Avenida Brasil se atribui a uma série de fatores. “Uma ótima produção, uma direção cinematográfica e um elenco bem escalado em personagens cativantes e populares”, comenta. Pela primeira vez no horário de exibição, o subúrbio e as classes emergentes se tornaram palco principal das tramas, sem a distinção de núcleos “engraçados” ou “vilanescos”, já que todos os papeis carregavam várias verves.

O formato de seriado americano e as referências pontuais, bem acertadas pelo time de roteiristas, também foram importantes para fidelizar o público. “Os ganchos eram muito bons a cada capítulo”, completa Xavier.

IMPACTO NA VIDA DAS PESSOAS

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Décio agora é conhecido como “Leleco” pelos amigos


Uma sexta-feira à noite poderia ser considerada apenas o dia que todas as pessoas esperam para descansar e começar a aproveitar o final de semana. Mas, aquela tal sexta-feira do dia 19 de outubro, era especial para aqueles que aguardavam ansiosamente pelo final da saga. A jornalista Kelly Ferreira era uma dessas pessoas. Apesar de não acompanhar Avenida Brasil assiduamente, estava ansiosa para ver o último capítulo da novela. E não perdeu por nada: tanto é que “deu o balão” - como define - no chefe para conseguir estar em frente à TV na hora certa. Chegou mais cedo ao trabalho, cumpriu suas horas e saiu sem avisar ninguém. “O trânsito tava um inferno porque todo mundo deve ter feito o mesmo que eu. Mas vi a Carminha e é isso o que importa!”, diz ela.

O final da novela rendeu inclusive pauta para o programa de rádio que apresenta no dia seguinte, o Esporte e Notícia, da Rádio Bandeirantes. O primeiro pedido de comentário feito pelos ouvintes foi o gol do Adauto, personagem de Juliano Cazarré, cena que encerrou o capitulo. “No dia seguinte, fiz o Neto [comentarista] abrir o programa falando disso”, completa.

O trânsito e o trabalho, no entanto, foram questões de um dia. Mas a novela também mudou a vida de outras pessoas por mais tempo, até mesmo depois de seu término. O militar aposentado Décio Ferreira Mendes, 59 anos, o “Leleco” do videokê, irá carregar o apelido por um bom tempo. “Assim que a novela começou, viram que, além de careca, o personagem era extrovertido e engraçado como eu”, conta.

NA INTERNET

No Twitter, milhões de hashtags com os bordões da novela. Matérias e mais matérias convidando intelectuais para analisar o fenômeno ou, então, com algumas curiosidades pontuais sobre a trama. Ao observar o momento propício, a estudante de publicidade Ana Clara Matta, 22 anos, decidiu conectar a ideia da novela com seu recém-lançado site de cinema, chamado Ovo de Fantasma. Ela e os outros membros da equipe desenvolveram uma lista de como seria o último capítulo da novela se fosse escrito por alguns diretores de cinema famosos, como Woody Allen, Sofia Coppola e Quentin Tarantino. O resultado, no entanto, foi inesperado: diversos outros sites de grande repercussão replicaram a matéria, o que rendeu bastante visibilidade. “O Ovo de Fantasma duplicou, quase triplicou em fãs na fanpage do Facebook e cresceu absurdamente em acessos. O site é bem novo, então, o choque foi enorme”, conta Ana Clara.

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André viu oportunidade no momento para criar seu blog, o Avenida Brasindie

Também de olho no momento, o estudante André Magalhães, 16 anos, e o jornalista Fernando Galassi, 22, se uniram para criar um blog intitulado Avenida Brasindie. “Na véspera do centésimo capítulo da novela, no qual ela teria uma reviravolta esperada envolvendo as duas personagens principais, virou moda “congelar” fotos pessoais como na última cena de todos os episódios, com um fundo característico que se tornou a principal identidade visual de Avenida Brasil. “Tivemos a ideia de fazer isso com artistas de música alternativa, misturando letras de música com referência a novela junto às postagens”, explica Fernando. “Avenida Brasindie”, que começou como uma brincadeira despretensiosa, entre amigos, acabou sendo destaque em alguns dos principais sites de notícia do país e virou tema até de artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Para Ana Clara, a novela reverberou na internet por um único motivo - já vinha chamando a atenção dos telespectadores há muito tempo. “O Twitter imita a vida. E desta vez ele devolveu a experiência de assistir a uma novela, que já era prática abandonada e criticada pelos intelectuais há tempos, por conta daquele tal status de cult”. André, por sua vez, não acompanhou a novela, tendo assistido somente ao último capítulo na íntegra. “Mas me senti incluso socialmente ao saber quem era a Carminha”, brinca.

MÍDIA PAUTA SOCIEDADE

Para o professor Wagner Geribello, que leciona as matérias de Mídia e Sociedade e Teoria da Opinião Pública no curso de Jornalismo da PUC-Campinas, a imprensa também foi essencial para a popularização da novela como um todo, a partir do momento no qual o assunto passou a preencher as pautas dos veículos em geral. “A mídia define que o assunto importante que, teoricamente é de interesse público, é esse”,

Este tal fenômeno, no entanto, acabou encobrindo um dos assuntos recorrentes no país no mesmo momento: o início do julgamento do mensalão. Segundo Geribello, há uma tendência ao esvaziamento dos assuntos sérios para prevalecer os assuntos mais escapistas, de acordo com um raciocínio geral. “Uma matéria sobre o mensalão, as pessoas classificam como talvez importante, mas chata, algo que não leva a nada. Já uma matéria sobre a novela diverte”, conclui.

30 11 / 2012

As dedicatórias de livros podem dar a eles um novo significado

por Izadora Pimenta

Presentear alguém com um bom livro também é contar uma história paralela, fruto de alguma parte da relação entre o presenteado e quem presenteia. Dentro destes presentes, algumas pessoas se empenham em escrever as famosas dedicatórias, que ajudam a marcar esta tal história nos livros para sempre. E há quem tenha se empenhado em mostrar este Universo para todos: foi a partir da observação de algumas dedicatórias que Mariana Gogu decidiu começar o blog Eu Te Dedico, que desde o dia 5 de fevereiro deste ano mostra as dedicatórias que ficam escondidas nas prateleiras das casas ou dos sebos, enviadas por colaboradores de todas as partes do país. “A dedicatória marca um momento, mostra a caligrafia, que é uma coisa rara de se ver hoje e dá caráter único ao objeto”, acredita Mariana.

Lá fora, o americano Shaun Raviv teve a mesma ideia ao criar seu blog The Book Inscriptions Project. Segundo ele, a primeira dedicatória que viu, encontrada em 2002 em um bar de Manhattan, lhe inspirou a divulgar este costume por acreditar ter encontrado uma mensagem poderosa, mesmo não sabendo exatamente o que a mensagem significava e quem eram os dois personagens envolvidos nela. “É por isso que eu amo ler novas dedicatórias, para penetrar na vida das pessoas e imaginar como elas estão agora”, revela Shaun, que diz preferir as dedicatórias que são totalmente desconectadas das histórias dos livros.

Além de um mero objeto de curiosidade, as dedicatórias se tornam elemento inesquecível na vida de quem as recebe - e os livros geralmente abrigam uma página em branco logo no começo, pronto para abrigá-las. “A dedicatória torna o livro um dos presentes mais eternos que se pode dar, já que, dificilmente, uma pessoa se desfaz de um volume que tenha uma dedicatória importante”, conclui Mariana.

A dedicatória que inspirou Shaun a abrir o The Book Inscriptions Project

Dedicatórias e suas histórias

Luciana Estevam e Henrique Fernandes sempre tiveram uma relação aluno X professor bastante especial. Na hora de presentear Henrique com o livro Relações Perigosas de Choderlos de Laclos, um de seus preferidos na literatura francesa, Luciana decidiu se apropriar de uma fala do filme preferido de seu presenteado, o franco-canadense Eu Matei Minha Mãe.

"Trata-se do que a professora do personagem protagonista diz pra ele. Com toda essa atmosfera francesa, decidi fazer uma dedicatória bilíngue", conta Luciana. "Foi muito bom abrir o livro e ler aquela dedicatória. Sem contar que me identifico muito com ele, mesmo não tendo sido escrita inicialmente para mim. Foi bastante emocionante e simbólico", acrescenta Henrique.

Henrique e a dedicatória que recebeu de Luciana (ao lado de um autógrafo da atriz Maria Fernanda Cândido)

Mas até mesmo o livro mais famoso do mundo pode ganhar uma nova história. Foi assim com a estudante Ana Carolina Fonseca, que foi presenteada pelo seu pai com a Bíblia Sagrada e passou a dar uma importância maior a este presente após usufrui-lo. “Depois que ganhei, pude perceber que meu pai realmente se importa e quer que eu cresça e evolua”, reconhece. 

Confira aqui o depoimento de Ana Carolina sobre sua dedicatória:




Para visitar:

-> Eu Te Dedico: http://eutededico.tumblr.com/

-> The Book Inscriptions Project: http://bookinscriptions.com/

31 10 / 2012

Bethany Cosentino se apresentando com Best Coast no Planeta Terra Festival 2012 (foto: Divulgação)

texto por: Izadora Pimenta

Alguns definem o show da dupla californiana Best Coast como “pop ensolarado”. Não poderia ter uma demonstração melhor disso do que a apresentação de Bethany Cosentino, Bobb Bruno e sua banda no último dia 20 de outubro, dentro da escalação do Planeta Terra Festival 2012, que foi realizado no Jockey Club de São Paulo - em meio a uma chuva que assustava o público, o Sol surgiu aos acordes de Crazy For You (e irônico mesmo é que a primeira música havia sido When The Sun Don’t Shine).

Se enquanto escutava o trabalho da dupla em casa não havia me impressionado tanto com a qualidade, ao vivo as coisas mudaram de figura. Ao ver Bethany empunhando sua guitarra e representando, ao mesmo tempo, o surf pop, o lo-fi e a atitude de bandas dos anos 90, como Courtney Love em sua melhor fase no Hole, é possível perceber a que veio o Best Coast e o porquê de eles merecerem um lugar no festival.

Bethany se mostrava em sintonia com o público brasileiro - certa hora chegou até a dizer que “casaria com o Brasil”. Os hits, que parecem vindos de um diário de uma garota problemática, eram acompanhados de todas as formas por quem havia parado para assistir. I Want To, The Only Place, When I’m With You e a certeira Boyfriend, responsável pelo encerramento da apresentação, foram alguns dos que passaram por lá.

O Best Coast, no entanto, parecia escalado para o palco errado. O Planeta Terra Festival comporta dois: o Main Stage, para nomes mais conhecidos do público e o Indie Stage, com bandas um pouco mais desconhecidas, mas que prometem. O Best Coast, mesmo não tão popular fora dos blogs de música, estava no Main Stage ao lado de bandas de grande público como Suede, Kings Of Leon, Garbage e a brasileira Mallu Magalhães. Enquanto isso, o Indie Stage trazia Gossip, que faria parte da turma dos populares.

Mas, mesmo com o problema do palco, o saldo total da dupla foi positivo: o show do Best Coast foi um dos mais elogiados e abriu portas não só para novos fãs, como eu, mas também para uma volta esperada em solo brasileiro.

30 9 / 2012

O Facebook dá a liberdade do usuário de ir e vir. Mas será que participar de uma rede social na internet é tão ruim assim?

por Izadora Pimenta

Ficar “fora do mundo” por um pouco é o desejo que motiva pessoas como Mariana Rosa, estudante de Letras, a excluir temporariamente a conta da rede social mais utilizada no Brasil ultimamente, o Facebook. Vista por eles como um reality show tomando proporções reais e sem premiações milionárias, a opção de sair do virtual com as portas abertas para voltar quando quiserem, é tentadora, afinal: todos estão lá. “Ficar sem [o Facebook] dificulta a vida real”, acredita Mariana, que já esteve fora da rede duas vezes, uma delas por menos de 12 horas.

O portal que permite viver apenas o mundo fora da rede é bastante acessível: basta ir às configurações de conta e clicar em “Desativar Minha Conta”. Logo, a rede mostra um painel sentimental com amigos que irão sentir a sua falta, como se o semi-suicida social estivesse partindo para uma viagem muito longa. E, dentre os motivos pelos quais você está deixando a conta, a frase de impacto que traz a falsa sensação de liberdade ao usuário: “Eu voltarei”.

Mariana Rosa já desativou sua conta do Facebook duas vezes

É natural que o ser humano organize a vida em grupos, eventos e interações. E o Facebook está disposto a estimular este comportamento em cada uma de suas atualizações. Ao inaugurar a “Linha do Tempo” há um ano, modelo que permite registrar todo e qualquer fato da vida em um só lugar – desde primeiro beijo aos filhos - o fundador Mark Zuckerberg declarou que a intenção era que as pessoas apenas facilitassem suas relações interpessoais, mostrando quem elas realmente são. E todos já acataram uma ideia: segundo matéria publicada recentemente no Daily Mail, uma pessoa que não possui uma conta nas redes é uma pessoa que não está disposta ao convívio social. “A rede social é um conceito antigo, só ganhou um outro parâmetro com o meio online”, analisa a socióloga Débora Zanini, que trabalha com comportamento digital.

Aline Fortunato, estudante de arquitetura, estava tão adaptada ao modelo de organização proposto pela criação de Zuckerberg que, quando ficou fora da rede por um tempo, percebeu que isso poderia até mesmo prejudicar seus estudos. “Participo de grupos da faculdade que são essenciais para eu não esquecer as datas de entrega e conseguir material extra de estudo. Logo, precisaria voltar”, conta.

Sair não é uma opção

“Hoje não dá para começar do zero. Tive que aprender a fazer uso de listas e filtros para conviver bem na rede”, conta a jornalista Renata Arruda, que chegou a cogitar o encerramento temporário de sua conta por se sentir muito exposta. A necessidade do trabalho, cada vez mais dependente de contatos que são facilmente localizados por lá, acabou impedindo-a de concretizar a intenção.

Na mesma situação está André Ramiro, integrante de uma banda independente que se divulga, prioritariamente, pela internet. “Perco muito tempo com informação inútil, mas o Facebook é um jeito muito prático de cuidar dos assuntos da minha banda”.

Ivan Perina, professor de português, já segue o caminho contrário: apesar de considerar que dedica muita parte de seu tempo ocioso à rede, acredita que conviver nela não é problema algum. “A facilidade de comunicação entre meus amigos, as notícias selecionadas por pessoas de meus círculos sociais e os contatos profissionais não me deixariam sair”, justifica Ivan.

Para a socióloga Débora Zanini, rede social é a coisa mais natural do mundo

A caverna de Zuckerberg

Para Débora Zanini, as redes sociais podem causar uma impressão errada nos não-nativos digitais: uma falsa ilusão de proximidade, uma ilusão de que o tal “mundo lá fora” será imagem e semelhança daquele visualizado dentro do território da rede. Segundo a socióloga, as pessoas se realizam dentro do Facebook, mas há interações que não existem na vida real da mesma maneira que existem por lá. Por isso, este meio pode acabar se tornando perigoso para quem não se atentar quanto a isso.

Mas Débora acredita também que não há nada de errado com a rede social. “O homem sempre se relacionou, sempre teve uma rede de contatos. É a coisa mais natural do mundo”, conclui.

13 9 / 2012

Os carros insistiam em querer passar, mas a Marcha Zumbi dos Palmares estava no caminho, e não era à toa. Este ano, os organizadores anteciparam a data do líder para o sábado, dia 19. Assim, quando saíram e fecharam o trânsito de Campinas, não puderam ser ignorados. A favor dos direitos da população negra, utilizando como principais motes a defesa das cotas nas universidades e a luta contra o genocídio da raça, mais de cinquenta comunidades marcharam por ruas movimentadas da cidade em pleno sábado de manhã para conscientizar os passantes dos problemas enfrentados por elas, mas encarando tudo em ritmo de festa.

A marcha teve início às nove horas da manhã na tradicional Estação Cultura de Campinas, e terminou à uma da tarde no Largo do Rosário. Todas as comunidades desceram cantando juntas ao som dos tambores e chocalhos, trazidos pelos grupos de Maracatu da cidade.

Marchas como esta são realizadas no Brasil desde 1995, ano do tricentenário da imortalidade de Zumbi dos Palmares, e ganharam força na cidade de Campinas no ano de 2000, quando o dia 20 de novembro se tornou feriado municipal. “Mas este ano, a cidade está parada no dia 20. Nós queremos ser vistos para mostrar a força da raça”, contou a organizadora, Edna Lourenço. “Assim como no século dezessete os negros lutaram por um ideal em Palmares, nós estamos todos aqui hoje pelo mesmo motivo, a única coisa que muda é o contexto”, sintetizou Everson Moreira, estudante de Geografia que integra a ONG Afro Brasil.

Comunidades presentes

Na concentração da Estação Cultura, as comunidades juntavam-se com seus membros. A Comunidade Jongo Dito Ribeiro, responsável por estar à frente da marcha, foi uma das primeiras a chegar no local. Com a liderança de Alessandra Ribeiro, historiadora que retomou a tradição do jongo, dança afro-brasileira típica do sudeste brasileiro, na sua família e na cidade de Campinas, pouco mais de dez participantes estiveram presentes para reivindicar seus direitos junto ao grupo.

“O Jongo Dito Ribeiro está aqui para externalizar uma consciência que nós já temos”, explica Alessandra. “É tudo uma questão de parceria. Estamos aqui para fortalecer a ação de nossos parceiros enquanto eles também fortalecem a nossa. É uma grande família”. Para Alessandra, a comunidade negra ainda tem muito que avançar no meio cultural e político, já que alguns ainda não dão tanta importância ao fato de estarem juntos, pois nem todos possuem a mesma integração dentro de sua comunidade em particular. “Mas nós marchamos também por isso”, acrescenta.

O grupo Maracatucá, representante do tradicional Maracatu de Baque Virado, proveniente do Recife, é composto por integrantes que não possuem descendência negra direta, mas também está presente desde o início da Marcha Zumbi dos Palmares na cidade de Campinas. “Nós gostamos de descer e falar o que a gente faz. Nós defendemos essa cultura todos os dias, nada mais justo do que também lutar junto a eles”, justifica uma das organizadoras, Glória Cunha.

Além do preconceito racial, também há o preconceito religioso com as crenças de origem africana. É o que motiva todos os anos o Pai Moacyr de Xangô, líder de um terreiro de Candomblé, e seu grupo, a participar da marcha. “O candomblé foi reconhecido como religião oficial apenas em 2000. É porque falta esse olhar do passado e do futuro na população. Se você diz para a sua família, ou num grupo de amigos, que você é terreiro de Candomblé, pode ter certeza que noventa por cento das pessoas irão virar as costas para você. É por isso que a gente marcha”.

A participação dos políticos na marcha

As lideranças políticas da marcha estavam representadas pelo prefeito de Campinas, Demétrio Vilagra, que se juntou no cruzamento da Rua Thomaz Alves com a Barão de Jaguara, e pelos vereadores Josias Lech e Tiãozinho, ambos vereadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, que acompanharam o trajeto desde a Estação Cultura. Lech, descendente de poloneses, possui atuação permanente no movimento negro de Campinas, e justifica isso como uma opção pessoal. “Esse é o quarto ano que eu participo da marcha, que eu desço com eles, porque acho que isso é o mínimo que nós, autoridades, podemos fazer. Ajudar manter viva essa simbologia que é muito importante, não só porque enaltece, mas também pelo resgate histórico que ela representa”.

Tiãozinho, por sua vez, é o responsável pela instituição do feriado municipal de 20 de novembro, que está vigente em Campinas desde o ano de 2001. “Aqui em Campinas nós aprovamos, além do feriado municipal, a lei que inclui a História da África no currículo escolar, para que os jovens tenham consciência da importância da cultura negra para a construção da sociedade brasileira”.

Já Vilagra esteve presente para divulgar um novo serviço, o SOS Discriminação, sobre o qual comentou: “É um serviço para trazer as políticas públicas da igualdade racial de uma forma mais transparente. O Brasil é um país bastante rico na economia, mas ainda há uma pobreza de espírito que muitas vezes acaba afetando a comunidade negra”. – o funcionamento, portanto, não fora detalhado, mas no anúncio o prefeito prometeu dar início ao serviço no mesmo dia.

Outras comunidades se juntam

“Vocês sabiam que Campinas foi a última cidade do Brasil a abolir a escravidão? Que antes, o Cambuí era um bairro negro?”. Foi dessa maneira que o pessoal do grupo Anonymous, que está acampado em frente à Catedral Metropolitana de Campinas há um mês e duas semanas, também demonstrou seu conhecimento e apoio à questão defendida pela marcha. “Acho que a maneira com a qual eles protestam é até mais fácil de ser vista e absorvida do que um protesto político silencioso como o nosso. Mas, ao mesmo tempo, são impactos diferentes”, opinou “Smile” Tiago de Oliveira, que está desde o início no acampamento.

Portanto, não foram só as comunidades negras que se juntaram à marcha. Por se tratar de uma manifestação a favor das minorias, outras comunidades se sentiram acolhidas por ela, a exemplo da comunidade cigana. “Nós temos muitas comunidades ciganas, mas elas ainda não estão organizadas para lutar por seus ideais. A comunidade negra está. Por isso, é um ótimo início vir até aqui e juntar as minorias, para também aprender um pouco com eles”, disse Vanda Savá, presidente da Associação da Cultura Cigana do Estado de São Paulo.

Impressões da população

Durante as manifestações, houve quem não tenha gostado nem um pouco, principalmente os motoristas, que enfrentaram um trânsito paralisado no centro da cidade em pleno horário de pico. “Por que eles têm de sair na rua? Acho interessante a manifestação, mas não acho que eles devem atrapalhar a vida dos outros”, justificou o taxista Paulo Correia, que esperava a marcha passar pelo cruzamento da Treze com a Francisco Glicério para poder levar um passageiro ao seu destino.

O motoboy Olavo Lionel concordou com Paulo, mas mostrou mais intolerância ao assunto: “Isso é horrível. Olha o congestionamento no centro da cidade em pleno sábado. A causa vale a pena pra eles, mas acaba não valendo a pena para o restante da população”.

Mas durante a passagem da marcha pela Rua Treze de Maio, as comunidades realmente atraíram a atenção das pessoas. Era um sábado comum, os passantes não esperavam pelo barulho causado pelos tambores e cantos, mas a recepção foi, em grande parte, positiva. Algumas até saíam dançando junto.

Cleide da Silva saiu de uma loja e parou na porta para observar. “Eu acho isso tudo muito bonito. Nós todos temos que cair na real que somos todos iguais. Todos nós vamos para o mesmo lugar no final, não é?”, justificou a aposentada.

“Dá pra sentir que eles são alegres, que eles possuem um orgulho imenso de mostrar isso tudo para a gente”, é o que motivou a estudante Camila de Souza, parada logo ao lado de Cleide, a tirar fotos e tentar repetir os cantos entoados pelo pessoal do Jongo, uma prova de que a comunidade negra havia atingido seu principal objetivo naquele sábado.

*Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Comunitário da PUC-Campinas, em novembro de 2011, com Bárbara Bigon

13 9 / 2012

Depois de figurar como Melhor Álbum Nacional de 2011 em várias listas, Canções de Apartamento, estreia do carioca Cícero, chega agora às lojas de todo o país pela Deckdisc da maneira que reverberou pela internet: com as mesmas faixas, a mesma gravação caseira, ainda disponível para audição na página do músico no Facebook e para download em seu site oficial.

Antes trabalhando de forma independente, Cícero conseguiu lotar casas de shows em vários estados antes mesmo de ver seu nome na chamada “grande imprensa”. O início de sua carreira meteórica deu-se prioritariamente pela divulgação em blogs de música, o que lhe rendeu uma dedicada legião de fãs. Mas o que este álbum tem de tão especial para se destacar em meio a tantos outros trabalhos divulgados da mesma forma?

Para começo de conversa, Canções de Apartamento não é só um álbum feito por um cara chamado Cícero. É um álbum, do primeiro ao último verso, sobre um cara chamado Cícero.

Formado em Direito sem vontade de exercer a profissão, sem uma banda (nos tempos de faculdade, era vocalista de uma banda chamada Alice), morando sozinho pela primeira vez em um apartamento de 25m² no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro – distante da casa dos pais e a disposição para fazer e viver de música. Com estes fatores aliados à solidão, Cícero resgatou seus pensamentos, reflexões e ideias sobre a vida e transformou tudo isso em canções – gravadas dentro do próprio apartamento, como sugere o título do trabalho.

O resultado sincero pode ser encontrado neste álbum traiçoeiro. Tempo de Pipa, a faixa de abertura, é um convite aberto irresistível, formando um agradável par com a segunda, Vagalumes Cegos. Mas o que pode parecer imperceptível na primeira vez fica muito claro no final: estas canções já estão nos levando ao mundo de Cícero, e essa viagem não será tão fácil.

Este tal mundo de Cícero, a propósito, não se trata somente daquele pequeno espaço em Botafogo, mas também de uma mente cheia de percepções. E detalhes destas duas coisas estão escondidos ao longo das faixas. Durante a audição, nós podemos encontrar muito do que já ouvimos antes, mas, agora, com novos olhares. Tempo de Pipa, por exemplo, é uma espécie de releitura jovem e cheia de vida de Two Kites, faixa de Tom Jobim presente no álbum Terra Brasilis (1980). De Jobim, ele também empresta Dindi para a faixa Pelo Interfone. O jeito gilbertiano de cantar encontra as guitarras distorcidas do Sonic Youth, o cuidado dos Beatles de Rubber Soul (1965) e Revolver (1966) e as inquietações do Radiohead e do Interpol. Já que Caetano Veloso é um de seus maiores ídolos (You Don’t Know Me, de Transa (1972), dá a base para João E O Pé de Feijão), ele resgata o ideal da tropicália e nos mostra de maneira mais eficiente do que grupos como o Los Hermanos, outra grande inspiração sua, que a bossa nova pode, sim, casar com o rock and roll. De maneira tão delicada que chega a parecer natural, como se um sempre fizesse parte do outro.

Com esta exposição, o apartamento (no qual ele não mora mais, fisicamente) não está tão vazio. Quem ouve o álbum entra, senta no sofá, bebe um pouco de café e entende que Canções de Apartamento não é só um apanhado de canções bonitas: é uma confissão bastante conformista, com bagunçados começos, meios e fins, que pode causar alguns choques – mas choques cheios de esperança – naqueles que absorvem o conteúdo pacientemente.

Mas seu maior diferencial talvez tenha sido o rompimento com os principais elementos que vinham permeando a chamada cena da MPB alternativa e também a indústria fonográfica em geral. A conexão do passado com o presente se faz forte: enquanto as suas influências nos remetem a tempos antigos, sua persuasão dialoga perfeitamente com os tempos atuais. O disco gratuito e disponível para audição em todo e qualquer lugar e o contato direto e pessoal com os fãs através de suas redes sociais lhe concederam uma condição modelo de artista 2.0: aquele que realmente vai onde o povo está.

Não é só o lançamento pela Deckdisc que faz parte da trajetória de Canções de Apartamento em 2012. Cícero lançar clipes para todas as canções do álbum. Tempo de Pipa e Ponto Cego já possuem registros em grande rotação no YouTube e nos canais de música, mas o músico já possui na manga os vídeos para Laiá Laia e Açúcar ou Adoçante, que devem ser lançados ainda neste mês. Se Cícero está preparado para o público das massas, ainda não se sabe. Resta ao carioca um grande trabalho pela frente para expor todo o seu significado.

Cícero – Canções de Apartamento

Selo: Deckdisc

Preço médio: R$25

www.cicero.net.br

http://facebook.com/cancoes.de.apartamento


Crítica feita para a matéria de Estética da Comunicação (5º semestre), ministrada pelo Prof. Fabiano Ormaneze

13 9 / 2012

Entrevista por: Christian CamiloIzadora Pimenta Junior Passini

(22/08/2011 - Rock ‘n’ Beats)

Na última quinta-feira, antes de se apresentar no Espaço Mog, em Campinas, Marcelo Camelo conversou um pouco com o Rock ‘n’ Beats sobre seu novo trabalho, Toque Dela, algumas outras questões relacionadas à sua carreira, como a relação com a internet, e assuntos pertinentes como a superexposição de sua vida pessoal e a explicação do tal “olhar pokemón” citado em uma entrevista recente.

Camelo veio a Campinas trazido pelo Rock ‘n’ Beats, e além das canções de Toque Dela, mandou um repertório que passeou por Sou, sua estreia solo e algumas músicas do Los Hermanos, como A Outra,Morena e Além do Que Se Vê – que encerrou com chave de ouro a apresentação.

13 9 / 2012

*por Izadora Pimenta eDavi Rocha

Já dizia a profecia de Nostradamus: em janeiro de 1985, uma tragédia mataria milhares de pessoas durante um evento que reuniria muitos jovens na América Latina. Logo, as suspeitas foram apontadas para o visionário Rock In Rio, o primeiro grande festival de rock do Brasil, sediado em uma das cidades mais famosas do mundo.

Alguns até caíram na história do mesmo que previu milhares de vezes o fim do mundo, deixando de conferir performances históricas, ou mesmo proibindo seus filhos de fazê-lo. Mas para a maioria, a paixão pela música falou mais alto. “Um coroa muito gente boa [entusiasta da profecia] fez de tudo para me convencer a não ir. Mas se eu tivesse que morrer, morreria assistindo o festival”, conta o advogado Haroldo Dantas, que frequentou quatro dos dez dias da edição e se gaba por ser uma das vozes que acompanhou o Queen no histórico coro registrado na Cidade do Rock.

Dantas e as milhares de pessoas, porém, mostraram mais uma vez que o profeta estava errado, saindo de lá propagando um dos slogans mais conhecidos do festival na ponta da língua: “Eu Fui”.



O primeiro grande festival do Brasil

Atualmente, não é difícil ir a um festival de música no Brasil. Existem muitos, com as mais variadas estruturas e gêneros musicais. Só em 2010, tivemos desde os grandes SWU, Planeta Terra e Natura Nós até os independentes que pipocam por todo o país. Alguns, extintos, também já marcaram época, como o Tim Festival, responsável por trazer nomes como Julian Casablancas e seu Strokes, e o Hollywood Rock, que deu palco a uma histórica e bizarra apresentação do Nirvana. Mas talvez nenhum deles teria se aventurado da mesma maneira se o Rock In Rio não tivesse dado o ar de sua graça.

“Foi o nosso primeiro grande festival. Só isso já bastaria para entrar na história”, como sintetiza Marcelo Costa, editor do Scream & Yell. Mas a situação em 1985 era bem diferente da qual nos encontramos hoje: o país estava acabando de se livrar do fantasma da ditadura militar, a realidade econômica era bem diferente e a América Latina inteira passava longe da rota dos shows dos grandes artistas internacionais.

De repente, 14 atrações nacionais e 15 internacionais aportavam de uma vez só na Cidade do Rock, construída em um terreno de 250 mil metros quadrados na Barra da Tijuca. No espaço, além do palco, dois shopping centers com 50 lojas, dois centros de atendimento médico e uma loja do McDonald’s (que entrou para o Guiness Book, por vender 58 mil hambúrgueres em um único dia).

Na época, a expectativa criada em torno do Rock in Rio era enorme. “Todo mundo queria estar lá, com aquele bocado de matérias toda hora aparecendo na TV, no jornal, aquilo criava uma expectativa imensa. Era um lance de querer participar – sentimento que carrego até hoje nos festivais que vou: quero participar. Aliás, todo mundo queria participar”, conta Fernando Lopes, 37 anos. “Foi incrível. A Cidade do Rock era uma arena gigantesca com um público o mais diverso que se pode imaginar, desde a “turma da pesada” até casais de namorados. Foi o encontro de tribos mais pacífico que já presenciei até hoje”, completa o jornalista Ney Motta, de 45 anos.

E tudo começou com um público de 380 mil pessoas, daquelas muitas que seguiam as tendências do momento, com seus mullets e ombreiras. Elas usavam luvas verdes fosforecentes às seis horas da tarde da sexta-feira, 11 de janeiro, quando o ator Kadu Moliterno, escolhido para ser o apresentador, deu início a tudo aquilo. E quem teve a honra de batizar o palco foi o performático Ney Matogrosso, um brasileiro no meio de um cenário que, quase que de forma homogênea, ainda não acreditava na música nacional. “Eu previa uma vaia estrondosa de todos os metaleiros que estavam ali para assistir ao Iron Maiden. Foi um rebuliço geral, ao mesmo tempo que vaiavam ele, gritavam como vitoriosos. Quando o Ney subiu no palco, cantou a primeira música. Trocou de roupa lá mesmo no palco, cantou a segunda, a terceira e daí em diante e a galera respeitando ele, eu pensei ‘mas não é que nós metaleiros somos muito educados mesmo’”, conta Motta.

A ditadura acaba no Brasil, mas se mostra na música

Na quinta noite de Rock in Rio, o Brasil não era mais um país governado por militares: naquele dia acontecera a eleição indireta do civil Tancredo Neves para o cargo de Presidente da República. Enquanto isso, o primeiro show daquela noite na cidade do Rock era um verdadeiro desafio para a nascente democracia brasileira. A plateia de metaleiros, que esperava os shows de AC/DC e Scorpions, teve que assistir aos shows de Kid Abelha e os Abobóras Selvagens e Eduardo Dusek (usando roupa de clown). Ambos foram ferozmente vaiados pelos camisas cinzas, que chegaram a jogar pedras no palco. Dusek revidava: “Eu estou com a maioria. As pessoas que estão jogando coisas no palco têm mais é que ser linchadas. Se você é negativo, porque vir a um festival de rock? Fique em casa e se suicide que é melhor!”.

A realidade de um cenário que, infelizmente, ainda guarda os seus resquícios até hoje. “O público brasileiro não está pronto para a diversidade artistica. O brasileiro não está pronto nem para se aceitar como um povo com várias faces”, aponta Costa. A democracia só foi verdadeiramente celebrada na voz de Cazuza, que celebrou dois shows mais tarde o fim da ditadura no encerramento do show do Barão Vermelho, com a canção Pro Dia Nascer Feliz. “Que o dia nasça feliz amanhã pra todo mundo! Um Brasil novo, uma rapaziada esperta” (com o característico sotaque carioca), desejava.

No dia seguinte, Herbert Vianna, que ainda era uma revelação com os Paralamas do Sucesso, pediu: “Se não gostam de quem está tocando, fiquem em casa aprendendo a tocar. Quem sabe no próximo vocês não estão aqui em cima?”, em defesa do acontecido com Kid Abelha e Dusek. Na mesma noite, Lulu Santos reclamaria ainda do tratamento especial dispensado aos americanos. Sem cantar o clássico Como Uma Onda, ele termina seu show falando: “os americanos querem que eu acabe”.

Cheiro do ambiente

Tudo isso, por mais emocionante que pareça ser, aconteceu em um mar de lama. Isso porque a partir do segundo dia choveu tanto que o gramado da Cidade do Rock se transformou num grande lamaçal. Com o passar dos dias, o cheiro de lama se misturou com urina e 1,6 milhão de litros de cerveja Malt 90 (chamada na época de Malt Nojenta), a oficial do festival, formando um dos cheiros mais característicos da história.



A lama, não tão aproveitada quanto a do clássico Woodstock de ‘69, era tanta que o livro escrito pelo publicitário Cid Castro sobre esse primeiro Rock in Rio recebeu o título de Metendo o Pé na Lama.

O maior show e cachê do Rock in Rio

O show mais visto do Rock in Rio I no mundo foi o do Queen de Freddie Mercury. Enquanto 250 mil pessoas cantaram Love of My Life em coro, 250 milhões assistiram ao show pela televisão, em todo mundo. Até a MTV americana transmitiu.

Pode-se dizer que o Queen foi um dos responsáveis pelo sucesso do Rock in Rio. A banda foi a primeira grande atração a confirmar presença na Cidade do Rock, e só depois deles os demais artistas internacionais passaram a confirmar presença no festival. Não à toa, eles ganharam o maior cachê, que foi de 600 mil dólares.

“Foi só depois dali que a gente virou profissional”

A partir do Rock in Rio, o rock brasileiro começa a se profissionalizar, tentar fugir um pouco dos padrões gringos e se adaptar a uma realidade. A maioria das bandas ainda era muito inexperiente, não acostumada aos eventos e grandes estruturas profissionais. E não só as bandas: os técnicos de som também passaram a entender melhor como funcionava a estrutura musical e profissional necessária para a operar em grandes shows.

Em entrevista à Revista Bizz na época, Guto Goffi, do Barão Vermelho, lançou a seguinte declaração: “Os artistas da MPB eram relapsos em relação à qualidade dos equipamentos. O Rock in Rio ajudou a mudar isso”. Paula Toller (Kid Abelha), também à Bizz, confessou: “Foi só depois dali que a gente virou profissional”.

Ingresso

Um ingresso para um dia do Rock in Rio I custou de 16 a 28 barões. Quem comprou em outubro de 1984, quando começaram as vendas, pagou 16 barões, em novembro, pagou 18 barões, em dezembro 20. Em janeiro custou 28. Um barão era o equivalente a mil cruzeiros. Eles eram vendidos no extinto Banco Nacional.

1985

E 1985 estava apenas começando. Naquele mesmo ano, morreria Tancredo Neves, Mikhail Gorbatchev assumiria a URSS, Ultraje a Rigor e Legião Urbana lançariam seus primeiros álbuns, Ayrton Senna ganharia sua primeira corrida, o clássico We Are The World chegaria às lojas, seria realizado o Live Aid e estrearia a série Armação Ilimitada na TV Globo, que tornaria Kadu Moliterno ainda mais famoso. Mas, no entanto, gente como Queen, Iron Maiden, Whitesnake, Nina Hagen, Rod Stewart, Scorpions, Ozzy, AC/DC, Yes, Go Go’s e B52’s já havia matado a imensa sede de atrações internacionais, pelas quais o Brasil clama cada vez mais – e hoje é atendido com precisão.

Publicado originalmente no Rock ‘n’ Beats

13 9 / 2012

Com foco em esportes individuais, COB quer melhores resultados nas Olimpíadas no Brasil; atletas da região apostam no sonho.

 

Carolina Becker

Izadora Pimenta

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Daniel Paiola busca o sonho olímpico em 2016

Após a participação da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Londres, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) divulgou algumas medidas que visam aumentar o potencial olímpico do Brasil. Uma delas é o maior incentivo ao esporte individual, que costuma ser menos valorizado do que os esportes coletivos, como futebol e vôlei, mas que são os principais motores de medalhas na competição.  

Em Londres, o chamado Time Brasil, que é uma marca designada pelo COB que engloba todo atleta que veste a camisa brasileira, teve a melhor participação em Olimpíadas. Mas o órgão quer mais. Para 2016, aumentar esse incentivo e manter a força dos esportes coletivos é uma estratégia para atingir a meta de estar presente no Top 10 do quadro de medalhas. “O COB atualizou seu plano estratégico para nortear suas ações, com beneficio direto de tudo o que envolve a meta de fazer do Brasil uma potência esportiva sustentável, com resultados que se mantenham regulares ao longo do tempo. Com o plano, o COB passa a contar com uma ferramenta de planejamento a médio e longo prazos, flexível o bastante para ser ajustada às demandas de cada momento”, diz Alexis Panno, integrante da Gerência de Comunicação do COB.

Um dos atletas que recebe incentivo do Comitê é o paulista Daniel Paiola, atleta do badminton que foi bronze nos Jogos Panamericanos Rio 2011 e que não se classificou para Londres 2012 por pouco. Daniel começou no esporte por conta própria, em 2008, indo treinar em Portugal, e partir dos resultados positivos, começou a receber apoio do órgão. Mas apesar do apoio, ele ainda sente que o seu esporte é desvalorizado no Brasil. “Infelizmente é o que acontece no país do futebol.Não é justo me cobrarem resultados se tudo que eu faço é por amor ao esporte que eu amo. Se não fosse minha família, eu jamais poderia estar realizando um sonho”, conta Paiola.

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Após seis Olimpíadas, Hugo Hoyama acredita que precisa de mais incentivos 

Na mesma situação está o mesatenista Hugo Hoyama, que já competiu em seis Jogos Olímpicos. Recordista brasileiro em número de medalhas em Jogos Panamericanos (nove no total), ele começou sua carreira aos sete anos de idade, sendo convocado para a seleção brasileira de tênis de mesa aos dezessete, após passar uma temporada de treinos no Japão. Para ele, somente os recursos vindos do COB não são suficientes. “O COB tem se empenhado em conseguir mais recursos para as confederações esportivas, para que assim os atletas possam se preparar melhor. Há um incentivo maior, mas é importante também a ajuda de patrocinadores. Os atletas não podem depender somente do COB e do governo”, acredita Hoyama.

No entanto, Alexis confia que os jogos no Rio de Janeiro deem um impulso para a popularização do Time Brasil como um todo. “Estamos vivendo um momento único para o esporte nacional e temos que aproveitá-lo ao máximo. Os investimentos no esporte estão crescendo a cada dia e com a união de todos os segmentos da sociedade temos todas as condições de alcançarmos resultados inéditos”, afirma.

O esporte na região de Campinas

Por aqui também existem atletas batalhando por uma oportunidade de participar de grandes competições. È o caso do judoca Pedro Pessoa, de 16 anos. Campeão Sul-americano e Pan-americano em sua categoria, o atleta treina na cidade de Valinhos, mas diz que não recebe nenhum tipo de ajuda do município em que reside, Vinhedo, ou de qualquer entidade esportiva. Segundo ele, os custos de participação em competições têm que ser arcados pelos pais ou através de apoio de patrocinadores. “O incentivo ainda é muito pequeno. Os atletas que conseguem chegar a uma Olimpíada fazem um esforço enorme, e normalmente, possuem uma vida inteira de privações e dedicação, demorando muito até ganhar algum reconhecimento por parte do governo”, diz.

Em Campinas, há um órgão da prefeitura que  destina verba para projetos esportivos, o Fundo de Investimentos Esportivos de Campinas (FIEC). Mas apesar dos cerca de R$3mi destinados ao esporte, esta quantia não é suficiente para atender a demanda dos atletas, que necessitam de boa infraestrutura para os treinos e cuidados com a saúde, como assistência nutricional, fisioterapeutas e preparadores físicos.

André Bilia, atleta do taekwondo, é vice-campeão mundial universitário Belgrado-Sérvia 2008 e campeão dos Jogos Sulamericanos de Medellin 2010. Ele iniciou sua carreira na cidade, mas conta que mesmo fazendo parte do time principal da seleção brasileira de taekwondo, juntamente com atletas olímpicos como Diogo Silva e Natália Falavigna, nunca recebeu nenhum tipo de incentivo por parte do município, e que, por isso, mudou-se para São Caetano do Sul. “A falta de incentivo e de mídia ajudam a manter esse grande esporte desconhecido por grande parte da população brasileira. Se houvesse mídia, haveria muito mais patrocinadores e apoio aos atletas, e isso seria revertido em melhores resultados e aumento da popularização do taekwondo”, idealiza Bilia.

Incentivo do público

O COB prepara uma estratégia para que os atletas brasileiros recebam incentivos por parte da população, bastante focada nas redes sociais. O fortalecimento da marca do Time Brasil será fator determinante na popularização de atletas de diversas modalidades.  “A marca acompanha o objetivo de transformar o Brasil em uma potência olímpica, a partir da liderança do COB na preparação de atletas e equipes, na criação de ídolos e no aumento da percepção de valor do país”, explica Alexis.

Paratleta busca reconhecimento

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Caíque Aimoré quer fazer história nas paralimpíadas

Além da falta de incentivo por parte do governo, quem é paratleta ainda encontra outras duas dificuldades: o reconhecimento do próprio Comitê Paralímpico Brasileiro e a adesão do público ao esporte paralímpico. É o caso de Caique Aimoré, 19 anos, paratleta de natação que possui Mosaicismo, uma Síndrome de Down em grau leve.

As Paralimpíadas comportam a categoria S14, que compreende todas as deficiências intelectuais. “Mas há de convir que um portador de Down, mesmo em grau leve como no caso do Caíque, tem uma lentidão maior, e acabam não se classificando para as Paralimpíadas. Nesta categoria competem até pessoas bipolares, que fisicamente são regulares”, conta Caiubi Aimoré, irmão do paratleta.

Recentemente foi criada a União Esportiva Para Atletas com Síndrome de Down. O órgão possui como principal objetivo promover mundialmente o esporte dos atletas com a deficiência, visando o crescimento e fortalecimento da categoria para que esta seja reconhecida oficialmente pelo Comitê.

Mas, antes disso, os paratletas não contam com o apoio da mídia e das empresas que incentivam o esporte. “Infelizmente, poucos acompanham o paradesporto na mesma intensidade do esporte regular”, analisa Caiubi, que acompanha de perto a carreira do irmão. Para Caiubi, 1% do apoio que o futebol brasileiro recebe já faria a diferença. “Paradesporto é esporte de alto rendimento, e não apenas superação. O ciclo paraolímpico 2016 já está aí, paratletas existem e nós esperamos que isso seja compreendido cada vez mais”, conclui.

 

*matéria produzida para o Saiba+, jornal laboratório da PUC-Campinas